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Amem-se

Já não sinto mais a vida brilhante dentro de mim. Algumas pessoas se agarrariam nas últimas faíscas... eu estou sentado em um trem, minha cabeça apoiada na janela, esperando desaparecer de forma surreal. Onde estão os motivos para continuar? Eu começo a esquecer as coisas. As palavras não cogitam sair pela minha boca, permanecem na minha mente como um amontoado de livros prontos para queimarem. Meus braços apoiados na mesa, enquanto digito qualquer coisa, sinto-os cruzarem, como se alguém puxasse de um lado para o outro. Os olhos mal acompanham a luz. Estou tão cansado. Sinto que minha ampulheta caiu, o tempo se esvai pelos meus dedos, assim como a areia voa por todo o quarto. Lembrando os problemas, os arrependimentos, e mesmo sabendo que preciso limpar a mente, quem poderia me ouvir por tanto tempo? Para mim sempre está chovendo. Eu ando me escondendo dos sons, como se fossem me molhar. Na verdade, eles me perfuram, rasgam a minha alma e eu já não sei mais o que é se...

SÉRIE: Um segundo, uma viagem. - Respira

Ele nem pensou duas vezes e parou do lado do carro branco. Deu sinal que estava indo à direita. Estacionou com perfeição. Dessa vez tirou o sinto com calma. Olhou no espelho pra arrumar o cabelo. Abriu todos os compartimentos que viu mas nem sabia pelo que estava procurando. Mordeu os lábios. Fingiu para si mesmo que estava pensando. Esperou o momento certo e então abriu a porta com cuidado. Lembrando das cenas de filmes, fez questão de imitar, com um pé de cada vez, delicado porém firme. Nem olhou para trás de primeira. Contemplou o horizonte enquanto girava para fechar a porta. Começou a caminhar vagarosamente e disfarçou de certa forma que se convenceu que não sabia o que fazia. Levantou as sobrancelhas, um leve sorriso de canto e depois aquele aperto nos olhos. Certamente significava que os raciocínios aconteciam nesse instante. Pode compreender tudo o que acontecia com a jovem moça tentando fazer o carro ligar. Ele entendeu que ela t...

Um pouco da vida de cada um.

Antigamente eu poetizava as dores e sofrimentos.  Assim como o vento, empurrava a tristeza e deixava sobre a mesa apenas motivos para rir. Não deixava o silêncio surgir, tentava descontrair todos ao meu redor. Com o tempo percebi que me ignoravam, disfarçavam quando eu chamava a atenção. Comecei a entender que deveria mudar ou mudar de amigos, porém eu sentia o perigo da repetição. Eu queria a cada dia achar uma forma de impressionar, mas ninguém fazia questão de me olhar. Eu fui me afastando, esperando que tivessem saudade, que me chamassem para conversar e me escutar. Eu tinha histórias para contar. Em pouco tempo estava sozinho. Gastei muito de mim dedicando-me a todos, esqueci de conversar comigo e dar o prestigio de me abraçar, me entender e me gostar. De tantas árvores bonitas, eu sou uma das folhas esquecidas que já caíram no chão.

Ninguém notará

Estou na beira da janela. Enquanto a chuva cai em preto e branco, lembro dos últimos outonos. Um peso nas bordas dos olhos. Eu quase não consigo respirar, desejando simplesmente não poder mais ver. Não consigo acreditar que vivi minha vida através de outra pessoa. As escolhas que fiz a muito tempo, pensava que mudaria todos os rumos. Eu errei e caminhei errado retornando ao vazio. Há um silêncio profundo. Fui deixado para trás quando mais precisava de alguém para segurar meu coração, apenas sou outra folha caída no chão. Não desejo viver mais um dia para ver o tempo me esmagando. Eu estou tão alto. Estou me inclinando. Vou me retirar dessa luta, apenas fecharei meus olhos.

Só mais um círculo

Então você usa a noite para dormir. Parece-me que é obrigado a descansar, para então levantar e repetir.  Eu costumava descansar no jardim dos sonhos. Aproveitava as incríveis maravilhas criadas pela minha mente, habituada a lembrar das palavras e conectar os pontos da maneira que considerasse melhor. Calculava os destinos. Mal compreendia os sons iniciais mas me cercavam de falas intermináveis. Cheirava a grama, as flores. Subia nas árvores e passava horas em fantasia. Me inspirava com a natureza, uma dança encantadora de pureza. Me desligava como uma televisão. Desejava assistir o sol se escondendo em cada planeta. Nunca pensei como alguém poderia querer estar aonde eu estava.  Sentia o brilho. Ouvia a água fluindo. O ar abraçando meus pulmões.  Eu poderia viver para sempre assim. Fazia do meu descanso: o descanso. Então você usa a noite para dormir. Parece-me que é obrigado a descansar, para en...

Escape.

Então acontece um fechar de olhos. A fuga. Uma procura, um desejo. A percepção detalhista, estando acima das esferas e sentindo no ar a mudança. Relembre ontem, a sua mão procurando a minha. Os sentimentos atravessando os corpos. Os sorrisos inegáveis. A lua surgindo. A noite abraçando-nos. A criação da eternidade. As possibilidades. O sol que irá brilhar, a neve que ira derreter. A fluidez do desconhecido percorrendo o universo. Então acontece um abrir de olhos. O retorno. As coisas não mudaram, estagnação. Você pode escolher outro sofrimento, outra dor.  Caindo sem sentir, através de coisas complexas. Estamos nos perdendo em ecos que nem sabemos quem gritou. O choro, a inocência perdida. Os enterros de um caos mental, em crônicas da vida. As memórias colidindo, o tempo sumindo. Círculo, infinito.

Considero, agora

Atormentado. Eu quebrava promessas, eu fantasiava asas douradas e voos sobre os humanos imutáveis. Hipnotizado. Eu me comprometia, estava apto para os senhores tolos. Existia uma variação. Um tipo de caçador desconhecido pelo próprio ser. Caçava por miragens, mergulhava nas ignorâncias e não me importava com o resto das pedras. Posso relatar um vasto caminho que eu nem trilhei, apenas vi nos olhos dos que retornavam. Achava incrível perceber como as pessoas gostavam de errar, eu aprendi com elas mas fazia questão de quebrar minha própria vida apenas para sentir uma dor que mal chegava na minha pele. As ilusões acenando, e novamente promessas de engano. Nós construíamos impérios em cima de cemitérios. Fazíamos milhares de reis, dávamos o trono, dávamos o poder e então fazíamos sofrer. Todos ainda vagam pelo jardim do esquecimento. Desconhe...