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Profundidade

Meu barco está afundando. E sei que o problema é tão profundo quanto o próprio mar. Não é culpa da água, dos remos ou dos pregos que ainda resistem em segurar as madeiras cansadas. Mas é como se não fosse minha culpa. Algo além, uma força oculta que empurra tudo para baixo. Mas antes de chegar na sólida solidão do chão, ainda faz questão de me ver debatendo braços e palavras em vão.

Esqueça

Esqueça. Conquistar a paz exterior é como vencer uma guerra sozinho. É impossível, é inviável, mas mesmo assim, insistimos em estar lá. Sabe aquele pensamento de que tudo irá melhorar um dia? O pensamento de que a fase ruim vai passar e que terá o que quer? Esqueça. Eu esqueci. Já estou condenado. Amarrado na primeira linha junto ao surto, raiva, loucura e solidão. Cheguei nessa posição sem escolha. Acordei e assim fiquei. Não há como escapar ou negociar. Ao meu lado, centenas de corpos exalam os gritos de vidas que foram dilaceradas ao som de talheres, relógios, gotas, pássaros e outros sons inofensivos, aparentemente. Eu pertenço a essa tortura. Tenho o mesmo cheiro, as mesmas expressões, os mesmos pensamentos. Me castigo e castigo outros. E todas essas correntes ao meu redor, bem... jamais irão se livrar de mim. Somos pilares equivalentes, entrelaçados mentalmente, afundando sem cerimônia em um mundo que pedem para esquecer da gente.

27

O ciclo em que vivo é o aspiral de uma mola jogada no chão.  A cada volta eu me abandono. Fico sentado em um lugar que nunca fui, ouvindo as ondas de um mar que nunca conheci, fingindo respirar um ar solitário com um pôr do sol que não é capaz de me iluminar. Por aqui, é como se já estivesse me afogando. A imaginação como barco da realidade. E lá vai. Perguntando nos cantos da memória, revirando anotações, tentando recriar sensações melancólicas típicas de um dia meramente especial. Como uma composição que ignora o instrumento, um relógio que não aprendeu a marcar o tempo, a mente separada do corpo, do sentimento. E assim como a ponta da mola, estarei enterrado em poucas voltas.

Velho

Quanto tempo leva para você retornar onde começou? À sua primeira casa, sua primeira rua. Ver as obras que nunca foram terminadas, os portões que nunca foram pintados. Lembrar das suas preocupações que eram ignoradas, mas mesmo agora que cresceu, você também as ignora. Apenas uma volta, sem permanecer. Uma tentativa de respirar um novo ar com velhos pulmões. Tentando contar cada lamento por aqueles que se foram da sua vida, e que continuam vivos mas tem você como morto. Sabe que esta velho a muito tempo,  só precisa esperar o corpo lhe alcançar. Depois de tantos questionamentos, sua vida virou uma dúvida. Por mais que encontre inúmeras respostas, tão pouco sabe a quais perguntas elas pertencem. E retorna. Esquecido, se esquecendo.  Casas sem números, ruas sem nomes. Uma mente pobre, sem janelas para ver que tudo ao seu redor se desmanchou. O relógio parou de carregar os seus fracassos. Contando o tempo por passos, mesmo não indo longe, todo o caminho que ignorou, o afundou. Não enxerga

Ação e reação.

Toda ação tem uma reação. Toda decisão tem uma consequência. Eu passei quase a minha vida inteira ouvindo essas frases, e mesmo assim, nunca as realmente conheci. Sempre vi o futuro como imediato. O próximo segundo para respirar, o novo dia o qual a dor diminuirá, a próxima semana para recomeçar. Um futuro tão longe quanto meu próximo corte de cabelo. Infelizmente, para mim, o espelho é lento demais para contar a verdade, principalmente quando não se olha para si. Eu sou esquecido. A minha mente não tem gavetas ou arquivos de memórias para que eu possa revisita-las, senti-las e me emocionar com o que vivi. Apenas acredito que fiz coisas interessantes, mas não relevantes. Coisas sem movimento, sem vento. Rimas pobres que ninguém se dará o trabalho de notar, anotar. Eu estagno fácil. Me debruço sobre o relógio e me hipnotizo com as engrenagens que sustentam a pressa. Passo a vida assim... e ninguém me acorda. Eu sou esqueci

Sobre o tempo.

  Eu vejo o ponteiro do relógio se arrastando para fazer a única e eterna conta de adição, como se carregasse toda a areia dos desertos do universo em sua estrutura... e, mesmo assim, ainda estarei atrasado para viver.

Regressivo.

A cada dia eu me sinto perdido. Porém, não há evidência de que já havia me encontrado. Novamente me envergonho, me escondo. Esqueço ideias, abandono sonhos. Meus bolsos estão cheios de coisas. Carrego decorações de um funeral. Carrego o relógio da pressa. Sinto que algo está escapando de mim. Talvez porque desisti. Então o que ainda estou fazendo aqui?